Desabafo de uma infância recalcada
Nasci e cresci e sempre vivi, até hoje, num núcleo familiar que defendia que a última palavra pertencia à figura masculina e mais velha do lar. A minha mãe dizia muitas vezes: “A última palavra é a do teu pai”. Habituei-me a ouvir esta regra, mas nunca me conformei com ela. Mulher, porque é que sempre te reduziste à sombra de um homem, à espera de colher os frutos que só ele decidia quando os deixar cair? Homem, porque é que, com os teus infinitos ramos, nunca puxaste a tua mulher para fora da sombra, para que ela também pudesse apanhar o sol e fazer crescer os seus próprios frutos? A culpa é dos dois. Sim, há culpa, há raiva. E eu sei que não me devo intrometer no modo de vida de duas pessoas, mas intrometo-me indirectamente. Apetece-me ser eu a puxar a mulher pelo braço e a fazê-la ver que a vida não se vive à sombra, pois lá não cresce nada. Apetece-me ser eu a bater no homem e a fazê-lo perceber que a sua falta de gratidão por quem o apoia e não deixa desabar só o faz apodrecer....